A educação e a droga

Franca é uma cidade industrial do interior de São Paulo, relativamente próspera e bem administrada pela prefeitura, como pude comprovar ao longo dos últimos anos. Pois bem, um levantamento simples do Conselho Tutelar de lá mostra a complexidade do problema da droga no Brasil: 40% dos estudantes que largam a escola estão envolvidos com o uso de drogas! Como apontou nesta semana o jornal AGORA, esses jovens têm de 12 a 16 anos, são alunos do ensino fundamental, quase todos usuários do crack. Segundo a presidente do Conselho, “o crack tira o adolescente da escola por semanas e, às vezes, não o deixa voltar”.

 

O combate à droga prometido pelo governo Lula nunca passou dos anúncios eleitorais. Na prática, pouco ou nada saiu do papel e da publicidade. Qualquer programa sério de enfrentamento da questão deveria envolver pelo menos quatro tipos de ações: repressão ao contrabando  da cocaína, guerra ao tráfico, educação da população e recuperação dos dependentes químicos.

 

Quero chamar a atenção aqui para a educação. O Brasil faz muito pouco ou nada para educar as pessoas, incluindo nossa juventude, sobre o males da droga. Há experiências interessantes aqui ou acolá, mas sem grande abrangência.

 

Quando ministro da Saúde, envolvi-me ativamente na educação a respeito dos males do cigarro. Proibimos a publicidade enganosa, fizemos campanhas de TV (numa delas mostrando que o caubói do Marlboro morreu de doença do pulmão causada pelo tabaco) e introduzimos, nos maços de cigarro, fotos sobre as doenças provocadas pelo tabagismo. Ou seja, concentramo-nos na mitigação do desejo das pessoas de começarem a fumar ou continuar fumando. Posteriormente, no governo de São Paulo, proibimos o fumo nos lugares públicos fechados (incluindo bares, restaurantes, lojas, etc.), iniciativa  que se generalizou no país. Tudo isso funcionou: há evidências de que o consumo de cigarros no Brasil pelo menos foi desacelerado, e que se desenvolveu uma cultura antitabagista na sociedade.

 

Já passou da hora. É preciso  fazer uma grande ofensiva educacional de combate às drogas que transformam nossos jovens em dependentes químicos: cooperação com ONGs voltadas a esse objetivo;  campanha nas escolas, filmes, cartilhas, esclarecimentos nos jornais, revistas, internet, matérias de rádio e televisão, anúncios como matéria paga, sim, do governo. Campanha intensa e prolongada, inteligente e, acima de tudo, convicta, não envergonhada.

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