À minha amiga Ruth Cardoso

Homenagem feita na missa de 7° dia, São Paulo, 1° de julho de 2008

Difícil falar das tantas coisas boas e justas que foram ditas a respeito da Ruth. O que se viu foi raro, muito raro entre nós. Elogios à discrição, à dignidade, à simplicidade, à coerência, ao rigor intelectual, ao ativismo solidário, conseqüente e inovador dessa amiga tão querida que nos deixou.

Ruth nos lembrou, a todos, as nossas melhores virtudes, que elas ainda existem. Nela, reunidas, de maneira exemplar. Ela morreu e, no entanto, vive na sua obra e nos afetos que cultivou. Vive na sua família.

Eu lembro que não conhecia a Ruth e, no começo dos anos 60, vi um livro do professor Fernando Henrique. No livro, a dedicatória dizia, não me lembro mais qual é, dizia, “”A Ruth Correia Leite Cardoso, laços fundamentais”, que ela soube manter de maneira tão sólida e tão afetuosa ao longo destas décadas.”

Eu não seria capaz de dizer, aqui, nada melhor de tudo o que foi dito. Por isso, vou lembrar um dos nossos melhores poetas: Manuel Bandeira. Aquele que se vai, mas vive além da morte. É o tema do poema, que ele dedicou a Mário de Andrade, quando perdeu o amigo.

 

Permiti-me parafrasear seu texto, nesta que é mais uma das conversas fraternas que tenho com Ruth.

 

Digo, então, à minha amiga:

 

Anunciaram que você morreu. 

Meus olhos, meus ouvidos testemunham.

Mas a alma profunda, não.

Por isso, não sinto agora sua falta.

Eu sei bem que ela virá, pela força persuasiva que tem.

Virá súbito um dia, inadvertida para os demais.

Por exemplo, assim. À mesa, conversarão de uma coisa e outra.

Uma palavra lançada à toa.

A tirar na franja dos lutos de sangue.

Alguém perguntará em quem estou pensando.

Eu sorrirei, sem dizer, que é em você.

Profundamente.

Mas, agora, eu não sinto a sua falta.

É sempre assim.

Quando o ausente partiu sem se despedir, você não se despediu.

Você não morreu, ausentou-se.

Eu direi: faz tanto tempo que ela não escreve, irei até sua casa.

E ela não estará.

Imaginarei: está no sítio de Ibiúna.

Está numa reunião, na Cidade Tiradentes.

Ou no Rio, com seus netos.

Saberei que não.

Você ausentou-se.

Para outra vida.

A vida é uma só, e a sua continua.

Na vida que você viveu.

Por isso, Ruth, não sinto agora a sua falta.

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