A prática desmente o discurso

O governo diz que está combatendo a entrada de drogas no país. Esse é o discurso. E a realidade? Um relatório da Federação Nacional dos Policiais Federais(FENAPEF), referente ao Estado do Acre, detalha as dificuldades que eu mencionei no meu artigo “Armas de destruição em massa“. Sem recursos básicos nem efetivo suficiente na fronteira, a polícia não tem como conter a entrada da cocaína pelo estado.

A situação da Polícia Federal no Acre não é muito diferente do quadro de abandono em que se encontram dezenas de unidades e delegacias Brasil afora. Em Santa Rosa do Purus, situada a cerca de 300 quilômetros da capital, Rio Branco, a situação é calamitosa. O acesso mais fácil até a cidade é de avião. São cerca de 1 hora e 15 minutos de voo. A viagem de barco dura em média 12 horas. O posto da PF está localizado às margens do Rio Purus, tendo de um lado o Brasil e do outro o Peru.

Como se trata de um local de difícil acesso, é de se imaginar que os recursos disponíveis aos policiais para o enfrentamento ao crime sejam abundantes. Errado. Apenas um agente federal fica no posto para fazer frente ao narcotráfico, à guerrilha, ao tráfico de armas e, ainda, cuidar da imigração. (…)

O único meio de transporte da Polícia Federal na cidade é um veículo que está quebrado. O colete balístico está vencido há mais de três anos e o único meio de comunicação é um telefone, que só pode fazer, pasme, “chamadas a cobrar”. “Enquanto isso, na Superintendência Regional, para onde o policial ligaria  em caso de urgência, há uma recomendação para que chamadas a cobrar não sejam aceitas”, comenta, indignado, Francisco Sabino, diretor da Fenapef.

Matéria da Folha de S. Paulo de 19/4/11 (G. Rocha e R.Vargas) é também pra lá de ilustrativa:

Cortes de gastos estão paralisando os barcos da Polícia Federal responsáveis pelo patrulhamento dos rios que ficam em rotas de entrada de armas e drogas no país. Em Foz do Iguaçu (PR), na fronteira com Paraguai e Argentina, a Delegacia de Polícia Marítima está trabalhando com um regime de cotas de combustível que reduziu à metade, em relação ao fim de 2010, as operações de patrulhamento com 20 lanchas… O rio Paraná e o lago de Itaipu são considerados zonas críticas. Como a ponte da Amizade tem uma vigilância ostensiva,criminosos cruzam o rio e o lago para escoar armas, drogas e cigarros. É comum a travessia ocorrer durante a madrugada em pequenas embarcações que atracam rapidamente na margem brasileira para deixar o carregamento ilegal.

Um outro vazio de fiscalização está no rio Uruguai, que separa a Argentina do Rio Grande do Sul. A região é considerada pela PF um entreposto alternativo para drogas e armas ao mercado consumidor brasileiro. Os cerca de 600 quilômetros de rio contam com a vigilância de apenas três embarcações duas em Uruguaiana e uma em São Borja. Policiais das duas delegacias relataram à Folha que os cortes reduziram operações.

Pode haver ausência mais gritante da falta de prioridade no combate às drogas, de contradição entre discurso e prática de governo?  Mesmo que não houvesse corte de orçamento da PF, a vigilância das fronteiras seria, como é, precária, em face do abandono do setor. O corte, neste caso, termina sendo uma manifestaçãosádica da falta de consideração pela segurança e a saúde na população.

O doutor Ronaldo Laranjeira, chefe da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de SP, costuma lembrar que há 20 anos um grama de cocaína custava cerca de 100 dólares no Brasil; hoje, está custando menos de 2 dólares. Pior ainda, depois do crack está se alastrando o oxi, forma ainda mais barata e letal de se consumir a droga. Aliás, o oxi já chegou a São Paulo. Há poucos dias, a polícia apreendeu meio quilo da droga e uma pistola de uso exclusivo das Forças Armadas com um casal de namorados na zona sul da capital paulista.

É óbvio que o preço da cocaína despencou porque a oferta explodiu. Mas oBrasil não produz a matéria prima da cocaína, que vem dos países vizinhos. Com nossas fronteiras imensas, as mais desguarnecidas do mundo, sejamos claros: a única coisa que limita a entrada da droga é a capacidade de produção da Bolívia, da Colômbia e do Peru.

Enquanto isso, o ministro da Justiça lança nova campanha pelo desarmamento. Iniciativa oportuna, a não ser por um detalhe: o anúncio da campanha, com o alarido publicitário de costume, foi no Rio de Janeiro, a 1500 quilômetros da fronteira por onde entram no Brasil as armas que vão parar nas mãos dos traficantes.

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