AIDS: A luta continua

02/12/2011

Ontem foi o dia Mundial de Luta contra a AIDS, a pior doença surgida no final do século passado. Uma doença infecciosa de difícil enfrentamento, pois não existe vacina preventiva; sem tratamento, leva à morte em pouco tempo; sua transmissão está ligada ao comportamento mais íntimo das pessoas, relacionado a sexo ou drogas.

 

Eu particularmente perdi amigos por causa da doença, inclusive alguns que pegaram o vírus devido a transfusões de sangue.

 

A AIDS surgiu há trinta anos. Numa primeira fase, matou muita gente. A batalha pela prevenção foi, pouco a pouco, sendo feita em quase todo o mundo. No Brasil, a primeira ação mais organizada começou em São Paulo, no governo Franco Montoro.

 

A região do mundo que mais sofreu foi a África, onde quase nada foi feito. Na virada do milênio, somente a África do Sul chegou a ter um quarto de sua população economicamente ativa infectada pelo HIV.

 

Já nos anos noventa, foram sendo desenvolvidos medicamentos capazes de manter a ação do vírus sob controle: os chamados retrovirais. Remédios caríssimos, que não evitam a doença nem a eliminam, mas mantém as pessoas em razoáveis condições de saúde. Seus efeitos secundários negativos foram atenuados mediante novas fórmulas.

 

No Brasil, desenvolvemos um grande plano. Primeiro, de prevenção, campanhas educativas, do sexo seguro, do uso de preservativos, do perigo de pessoas se injetarem drogas nas veias, não apenas pelas consequências da droga propriamente dita, mas pelas agulhas usadas, poderoso vetor de transmissão do vírus.

 

Mas passamos a enfatizar também, a partir do governo Fernando Henrique, cobrindo todo o período em que fui ministro da Saúde, a entrega gratuita dos medicamentos e o acompanhamento das pessoas sob tratamento. Isso diminuiu a mortalidade e atenuou a transmissão, pois ampliou o comportamento mais cuidadoso dos doentes.

 

Assim, o Brasil foi considerado o país em desenvolvimento que melhor combatia a AIDS no mundo. Ganhamos prêmios lá fora e passamos a ser usados como exemplo para outros países.

 

Só pudemos fazer isso pela ampla mobilização do SUS e graças a centenas de ONGs sérias. Mas foi essencial o barateamento dos remédios, produzindo-se muitos deles dentro do país e ameaçando-se a quebra de patentes nos casos de medicamentos importados. Foi uma batalha dura, mas vitoriosa. Graças ao Brasil, outros países pobres se beneficiaram, pelo exemplo e pela resolução da Organização Mundial do Comércio por nós proposta e aprovada pelo plenário depois de uma grande mobilização internacional.

 

Mas a AIDS não acabou. No Brasil, estacionou nos últimos dez anos. A facilidade e o conforto dos remédios eficientes relaxaram na cabeça de alguns os cuidados para não se contaminar. Ledo engano, pois os medicamentos não eliminam a doença. Grupos de jovens homossexuais têm sido as maiores vítimas e para eles têm faltado ações educativas específicas.

 

De fato, a ação do poder público federal perdeu o pique na última década. Problemas de falta de recursos, gestão, timidez na política de medicamentos e campanhas preventivas menos eficazes.

 

É preciso retomar a batalha. Afinal, ainda morrem de AIDS 12 mil pessoas por ano, e um número três vezes maior pega a doença. Não dá para viver dos louros do passado, é preciso trabalhar pelo futuro.

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