Artigo na Folha: “Bye, bye, Brasil”

Bye bye, Brasil

Folha de S.Paulo
9 de fevereiro de 1988

O tema do artigo de Fernando Gabeira nesta Folha sobre a fuga, a intenção de fuga ou o sonho de fuga de profissionais liberais brasileiros para o exterior, merece análise e reflexão, especialmente porque baseia-se numa percepção de algo que está acontecendo e constitui um dos indicadores do tamanho da crise que envolve e enreda nosso país. E falar de profissionais liberais não esgota o assunto, pois a fuga se estende a investimentos ligados a capitais, não só de origem estrangeira, mas também nacionais.

Evidentemente o processo de internacionalização produtiva e financeira do após-guerra, acentuado a partir dos anos 60, acelerado desde a década passada e acompanhado pelo notável desenvolvimento das comunicações e da difusão das informações, não explica o que está acontecendo. Representa, quando muito, uma condição necessária, mas de modo algum suficiente. Romper barreiras permite movimentos, mas não define seu sinal. Até há pouco, com internacionalização e tudo, vinha-se para cá, não se partia ou se queria partir.

Os fatores explicativos são complexos, se entrelaçam e se reforçam reciprocamente. É preciso começar lembrando a semi-estagnação econômica dos anos 80, a mais longa de que temos registro (outros períodos longos, desde 1910, foram 1912-1918, 1929-1933 e 1962-1967), e que se traduz num crescimento próximo a zero do PIB por habitante entre 1980 e 1987. Isto é novo na história brasileira recente e representa uma mudança fundamental do padrão observado no após-guerra. Até 1980 o Brasil dividia com o Japão a condição de economia capitalista mais dinâmica (no crescimento e nas transformações estruturais) do mundo, Desde então, perdemos terreno, parecendo enveredar pelo caminho da semi-estagnação (quando não retrocesso) ao estilo pós 1980 da Argentina, do Uruguai e do Chile.

Tanto ou mais do que o passado recente adverso, pesa também uma certa descrença quanto à evolução futura da economia. A queda das taxas de formação de capital público e privado, em confronto com a carência de investimentos em infra-estrutura, capacidade produtiva e modernização tecnológica, não autoriza qualquer otimismo desenvolvimentista para o próximo quinquênio, digamos. Ao mesmo tempo, a nível psicológico, a semi-estagnação, pela sua duração, pode vir a plasmar a mente dos que, em última análise, definem os rumos da economia: o empresariado, a burocracia estatal e a força de trabalho mais qualificada e preparada.

Diga-se de passagem que a frustração, quando enfocada do ponto de vista do conjunto da sociedade deve bastante, sem dúvida, à violenta reversão das expectativas que acompanhou a agonia e a morte do cruzado, durante cujo auge se acreditou – e o governo (mais o próprio PMDB e mesmo setores empresariais) ajudou -, que estávamos no limiar da era da prosperidade com justiça social para sempre.

Os obstáculos a superar são certamente formidáveis, começando pelas restrições externas (com ou sem FMI), a inflação galopante, os nós do financiamento público e das desigualdades regionais e os infernais corporativismo e fisiologismo que infeccionam nosso organismo social, dilaceram o processo político e prosperam especialmente no contexto de um governo fraco, sem autoridade para dentro nem, portanto, para fora, sem legitimidade, sem eficácia e sem políticas coerentes.

Por aqui, aliás, começa, paradoxalmente, a esperança, a possibilidade de um sopro que movimente o barco. Trata-se da reconstrução no Brasil das condições de governabilidade, num contexto democrático. Isto exige, como fator necessário, não apenas que se termine logo uma Constituição razoável dentro do maior consenso possível, e que se realizem eleições diretas em seguida, mas também uma renovação das idéias e dos projetos sobre o país, capazes de dar um leme e um rumo ao barco. Por enquanto, estamos ainda prisioneiros de dilemas com parâmetros dos anos 50, do tipo “nacionalismo x entreguismo”, “estatização x privatização”, “populismo x autoritarismo”.

Finalmente, não esquecer: há os que exportam (ou deixam de importar) capitais e os que saem, pretendem ou sonham sair do país. Ao seu lado ou à sua distância, fica a grande massa da população, ancorada pelas carências de sua formação profissional, pelos baixos rendimentos, pelas condições de vida que, como aponta o Banco Mundial, são bem mais precárias do que as existentes em países do PIB por habitante semelhantes ao brasileiro. Uma grande massa que vê tudo pela televisão, que está desiludida e mantém a paciência.

Até quando?

José Serra

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