Artigo na Folha: “O efeito túnel”

O EFEITO TÚNEL

Folha de S.Paulo
16 de fevereiro de 1988

Há sete anos a economia brasileira permanece praticamente estagnada em termos da evolução do seu Produto Interno Bruto por habitante. Isto significa uma grande mudança na tendência observada nas últimas décadas e a perda de um fator essencial no afrouxamento das tensões sociais em nosso país.

A estagnação, numa sociedade que sofreu rápida urbanização, tem um parque industrial desenvolvido, abriga um setor de serviços moderno e sofisticado e um amplo sistema de comunicação e difusão de informações, tende a ser um fator poderoso de agravamento de conflitos e de erosão da capacidade governamental de articular as diferentes forças sociais e implementar políticas eficazes.

Esse fenômeno, no caso brasileiro, é acentuado por três circunstâncias peculiares ao nosso desenvolvimento: a forte desigualdade na repartição dos frutos do progresso econômico; as grandes expectativas despertadas junto à população quanto à rápida, substancial e duradoura melhora do seu padrão de vida; e a tradição populista-paternalista que vê no Estado brasileiro um ente que tudo pode resolver, dispondo para tanto de recursos econômicos e políticos ilimitados…

No passado recente, o aprofundamento das desigualdades sociais pôde ser razoavelmente tolerado precisamente porque a renda crescia para todos, embora os setores sociais mais altos ganhassem proporcionalmente mais. Produzia-se o que o professor Albert Hirschman chamou de “efeito túnel”. Se há duas filas de automóveis paralisados num túnel longo, diz Hirschman, e os veículos de uma delas começam a andar, os motoristas que permanecem na outra, embora parados ou andando bem mais lentamente, tolerarão a situação por algum tempo, pois têm a expectativa de que logo chegará sua vez.

Isto de certo modo ocorreu no Brasil de meados dos anos 60 até fins da década passada. Durante o “milagre econômico (1967-1973) a tolerância era altíssima; daí até 1979-1980 diminuiu bastante, mas manteve-se razoável. Em seguida, com a retração do crescimento da produção e do emprego e a explosão inflacionária, a tolerância gerou seu simétrico e seu recíproco. O cruzado recriou a ilusão – e parecia até que os que iam andar depressa eram os da fila antes descriminada – mas, com seu fracasso, multiplicou a frustração, que agora ascende de forma exponencial, comprometendo, porque não dize-lo, a credibilidade das próprias forças políticas que lideraram a redemocratização.

Se não conseguirmos tirar logo a sociedade do túnel paralisado (ou ao menos movimentarmos as coisas nessa direção) poderemos fazer face, em pouco tempo, a uma situação de retrocesso democrático, mesmo porque, junto à estagnação e a provável recessão estão presentes a fumaça sufocante da inflação acelerada, o grave conflito de poderes e a crescente ingovernabilidade do país, fatores que se reforçam reciprocamente.

A prescrição técnica sobre como sair do túnel tem que merecer muita reflexão e debate. Mas o fundamental, parece, é que a sociedade paralisada no túnel acredite na receita. Do contrário, sem cooperação e regras combinadas e na ausência de uma autoridade que proponha e supervisione seu cumprimento, nenhuma receita funcionará nem o engarrafamento desaparecerá.
Aliás, já na quaresma, a fumaça da inflação deverá mostrar sua densidade. Um aumento mensal de preços vizinho aos 20% é intrinsecamente instável, mormente pelos mecanismos de sustentação e realimentação que o acompanham: indexação generalizada, com movimento diário do câmbio e das operações financeiras; controle de preços reduzido e enfraquecido; preços agrícolas amarrados à correção monetária; salários reajustados pela URP, que, embora deixe os salários defasados diante da inflação crescente, garante reajustes mensais nominalmente elevados. Este mecanismo transformou-se no gatilho da fase do feijão com arroz.

Por outro lado, não surpreende o fato de que todos os setores sociais mais organizados e ou com poder próprio para fixar preços, adotem a indexação maior do que um, afim de compensar perdas passadas ou que, imaginam, terão no futuro. Isto, do mesmo modo que o natural receio de um novo congelamento, agitará e apressará a correnteza inflacionária que hoje só é amenizada por um fator perverso: a retração da demanda, que reflete a queda dos investimentos da massa salarial real e do emprego.

José Serra

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