Minha primeira vez

Paul Valéry dizia que os deuses sopram ao poeta o primeiro verso; o resto, depois, é com ele, fruto do seu esforço. Na poesia, na vida pública, em tudo o que fazemos, é preciso haver muito trabalho. E ele deve ser de tal maneira bem-feito que pareça algo muito simples, muito fácil, natural, “inspirado”. Mas, como vocês todos sabem e fica evidente imediatamente, não sou Valéry.

Comentei com um amigo economista, amante de literatura, que estava pensando em qual seria o texto de estreia deste site. Disse que o segundopost seria mais  fácil. Meu problema era o primeiro. Ele me recomendou que (re)lesse um conto de Machado de Assis chamado “O Cônego ou Metafísica do Estilo”. Conta a história do Cônego Matias, que tem de fazer um sermão e luta com as palavras, “a luta mais vã”, segundo nosso poeta Carlos Drummond de Andrade. Mas não sou Machado de Assis, tampouco Drummond.

Na cabeça do Cônego Matias, adjetivo e substantivo clamam um pelo outro, “Silvio” tenta encontrar “Sílvia”. Transcrevo um pequeno trecho do conto:

Sim, meu senhor, os adjetivos nascem de um lado [do cérebro], e os substantivos de outro, e toda a sorte de vocábulos está assim dividida por motivo da diferença sexual…

— Sexual?

Sim, minha senhora, sexual. As palavras têm sexo. Estou acabando a minha grande memória psico-léxico-lógica, em que exponho e demonstro esta descoberta. Palavra tem sexo.

— Mas, então, amam-se umas às outras?

Amam-se umas às outras. E casam-se. O casamento delas é o que chamamos estilo.

Passamos boa parte da nossa vida buscando um estilo para nós, tentando ser reconhecidos por alguma marca, algum traço particular, que seja só nosso e que, ao mesmo tempo, interesse às pessoas.

Há milhões de sites mundo afora. Decidi criar o meu. Dividirei com vocês, como é normal numa página pessoal, minhas descobertas, meus anseios, minhas idéias, meus propósitos. Mas quero que este seja, principalmente, um lugar para debater políticas públicas, temas que digam respeito ao futuro do Brasil e dos brasileiros.

Pronto! Já não sou mais como o estreante daquela primeira linha, soprada por Valéry.

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