Nota 194 – Resposta do ministro José Serra ao jornal Financial Times a propósito de artigo sobre o Mercosul

Em resposta ao artigo “Trade pacts: Latin America’s new faultline”, publicado em 24 de maio na edição digital do Financial Times, o ministro das Relações Exteriores, José Serra, encaminhou ao jornal a seguinte resposta, que foi publicada na íntegra na edição impressa do jornal hoje, 30 de maio:

“South America trade is built on strong strategic alliances

Sir,

As a long-time reader and admirer of your newspaper, I was surprised and disappointed to read “Trade pacts: Latin America’s new faultline” (EM Squared, FT.com May 24).

Besides being based on the highly questionable argument of a “new split” in Latin America, supposedly brought about by the opposition between Mercosur and the Pacific Alliance integration mechanisms, the article disregards objective differences and overlooks relevant circumstances and data in comparing the two blocks.

Mercosur has welcomed the establishment of the Pacific Alliance, has trade agreements with its three South American members (Chile, Colombia and Peru), which will lead to a free trade zone by 2019, and is negotiating with Mexico the widening of tariff reduction agreements. The two mechanisms hold regular meetings to advance their co-operation. They share the goal of enhancing their role in the global trade markets and consider that ever growing co-ordination between them, at many levels, can be achieved and should be pursued. There is no divide, only convergence based on shared goals.

While comparing the performance of the two integration processes (Mercosur, established 25 years ago, and the Pacific Alliance, established in 2011), the article overlooks the different stages of their evolution. It is only natural that the intensification of trade flows should have a faster pace in the initial years of any such arrangement. That is exactly what happened to Mercosur. Also, one should consider that the two main partners in Mercosur have been affected by the worst macroeconomic downturns in their recent history. Weak growth in the short run tends to slow down trade exchanges.

The authors mistake structural patterns for dynamic vectors of the agreements. Mexico and Chile, for instance, had a higher export/gross domestic product rate than Mercosur countries even before the Pacific Alliance had been set up.

It is not the best approach to try to infer long term trends in foreign direct investment from a rather small sample (three years). In fact, what the data really show is that Mercosur has a larger FDI/GDP ratio than the Pacific Alliance. On top of that, to talk about a “rivalry” between Argentina and Brazil in 2016 is laughable. In fact, the two largest countries in South America have built a strong strategic partnership which is at the very core of Mercosur.

Also, contrary to what the article suggests, I am fully convinced of the importance of Mercosur, and I am ready to work with our partners with a view to its strengthening.

José Serra

Minister of Foreign Affairs,

The Federative Republic of Brazil”

“O comércio da América do Sul está construído sobre sólidas alianças estratégicas

Prezado Senhor,

Como leitor de longa data e admirador de seu jornal, fui surpreendido, e desapontei-me, ao ler a matéria “Trade pacts: Latin America’s new faultline” (EM Squared, FT.com, 24 de maio de 2016).

Além de basear-se no argumento altamente questionável de uma “nova separação” na América Latina, supostamente resultante da oposição entre os mecanismos de integração do Mercosul e da Aliança do Pacífico, o artigo desconsidera diferenças objetivas e não leva em conta circunstâncias e dados relevantes na comparação entre os dois blocos.

O MERCOSUL saudou a criação da Aliança do Pacífico; tem acordos de comércio com os seus três membros sul-americanos (Chile, Colômbia e Peru), o que levará à constituição de uma Zona de Livre Comércio até 2019; e está negociando com o México a ampliação de seus acordos de redução tarifária. Os dois mecanismos mantêm reuniões regulares para aprofundar a cooperação. Compartilham o objetivo de incrementar sua participação nos mercados globais de comércio e consideram que uma coordenação cada vez mais estreita, em diversos níveis, pode ser alcançada e deve ser promovida. Não há divisão, somente convergência baseada em objetivos comuns.

Ao comparar a desempenho dos dois processos de integração (o Mercosul, estabelecido há 25 anos, e a Aliança do Pacífico, estabelecida em 2011), o artigo negligencia seus diferentes estágios de evolução. Nada mais natural que a intensificação dos fluxos comerciais seja mais rápida nos primeiros anos de qualquer mecanismo desse tipo. Foi justamente o que ocorreu no Mercosul. Além disso, deve-se levar em conta que os dois maiores parceiros do Mercosul foram afetados pelas piores retrações macroeconômicas de suas histórias recentes. O baixo crescimento, no curto prazo, tende a desacelerar o intercâmbio comercial.

Os autores confundem padrões estruturais com vetores dinâmicos dos acordos. México e Chile, por exemplo, tinham uma taxa exportação/PIB maior do que os países do Mercosul, mesmo antes que a Aliança do Pacífico fosse estabelecida.

Não é a melhor abordagem tentar inferir tendências de longo prazo em investimento estrangeiro direto (IED) a partir de uma pequena amostra (três anos). Na verdade, o que os dados efetivamente mostram é que o Mercosul tem uma relação IED/PIB maior do que a Aliança do Pacífico. Ademais, falar sobre “rivalidade” entre Argentina e Brasil em 2016 é risível. Na verdade, os dois maiores países da América do Sul construíram uma forte parceria estratégica, que está no cerne do Mercosul.

Além disso, ao contrário do que o artigo sugere, estou plenamente convencido da importância do Mercosul e estou pronto para trabalhar com os nossos parceiros, com vistas ao seu fortalecimento.

José Serra,

Ministro das Relações Exteriores,

República Federativa do Brasil”

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