Artigo: Paulo Alberto (Artur da Távola)

O Globo , 12 de maio de 2008

Um relato do Márcio Fortes, na última quinta-feira, em São Paulo, me deixou  apreensivo: “Visitei o Artur da Távola no fim de semana. Ótima conversa. Mas ele está muito frágil, não vai bem. A Miriam pediu para te dizer que não deixe de ir vê-lo logo.”

Planejei visitar o Paulo Alberto (Artur da Távola era o seu pseudônimo como jornalista e escritor, que ele adotou na época da ditadura) na segunda-feira seguinte. Mas a preocupação não me saiu da cabeça.

Na tarde de sexta, em viagem pelo interior de São Paulo, um assessor se aproximou com ar de más notícias. Num átimo, pressenti do que se tratava.

A partir daí, e até agora, as lembranças misturam tempo, cenários e conversas passadas.

A última vez que estive com ele, no hospital, com sua inteligência e bom humor em dia, ao lado do sofrimento físico.

Em 1963, no Rio de Janeiro, em alguma reunião onde o conheci, adversário do Lacerda, expressando-se com clareza, engraçado e boa-pinta.

No início dos anos noventa, numa salinha da liderança do PSDB na Câmara, depois da sessão do dia, somente os dois, disputando quem conhecia mais as letras de músicas do Orlando Silva.

O Zé Kéti visitando o Paulo na Embaixada da Bolívia, cantando “Diz que eu fui por aí”, uma composição que não fora ainda lançada.

Em La Paz, no começo do exílio, pleno inverno, a uns 4 mil metros de altura, compartilhando com ele o quarto do hotel.

Em Santiago do Chile, na sala da sua casa, ouvindo o professor Anísio Teixeira, seu sogro, um dos maiores educadores que já tivemos, contando como estava o Brasil.

No apartamento do senador José Richa, em 1988, planejando a fundação do PSDB.

Vendo-o na TV Senado e ouvindo-o na Rádio Cultura de São Paulo, explicando, analisando e apresentando música clássica.

Quando estudante de Direito, Paulo foi diretor de um jornal da União Metropolitana dos Estudantes, “O Metropolitano”, que circulava como encarte dominical do “Diário de Notícias” – e, sem exagero, precursor de um estilo novo na imprensa brasileira ao longo dos anos sessenta.

Em 1963 já era deputado e líder do PTB na Assembléia Legislativa da Guanabara.

Esse foi um ano difícil – inflação alta, inquietação militar, greves, agitação estudantil, governo hesitante – e longo: acabou, de fato, em primeiro de abril de 1964, quando o presidente Goulart foi deposto.

No exílio, Paulo instalou- se com sua família no Chile, onde fez programas de rádio e de TV, com grande sucesso. Lá nasceram dois dos seus três filhos.

Retornou ao Brasil antes do AI-5, assumindo o jornalismo como atividade principal.

Já no final dos anos setenta, depois da anistia, retomou a atividade política. Foi eleito deputado federal em 1986 e reeleito em 1990.

Deu grandes contribuições à nova Constituição, principalmente em relação à comunicação, à liberdade de opinião e de informação.

Elegeu-se senador em 1994, vindo a ser, para mim, o melhor orador da legislatura, com improvisos que poderiam ser transcritos como textos irretocáveis:  entonação agradável, idéias boas, por vezes expostas com veemência, mas sem nenhuma ira, mesmo em relação aos adversários.

Por essência, era um homem sem rancores. E um magnífico analista de pessoas e de seu comportamento, sem qualquer mordacidade.

Lembro-me que o Marcello Cerqueira, seu amigo fraterno, nos idos dos anos sessenta, dizia, divertido: “Paulinho, você é a figura síntese do IV Centenário da cidade.”

O Samuel Wainer me disse, logo no começo do exílio, que achava o Paulo Alberto o político mais promissor da nova geração, e que ele chegaria a presidente da República.

Quando nos conhecemos, eu tinha 21 anos, e passei a tratá-lo como uma espécie de irmão mais velho, não pela diferença de idade, mas de sabedoria. Isto se manteve por todas estas décadas.

Talvez ninguém na vida pública tenha me conhecido tão bem, nos gestos e detalhes e, ao mesmo tempo, me aceitado tão bem. Por isso mesmo, suas reflexões e opiniões a respeito de rumos que eu deveria tomar em cada fase de minha trajetória, ou como reagir em determinadas situações, sempre foram lúcidas e objetivas, em geral acertadas!

É evidente que a previsão do Samuel exigia uma combinação, digamos assim, de destino e circunstâncias.

Mas o Paulo teve outro problema: em relação à média da política brasileira, ele era equilibrado demais, tinha paciência de menos para cultivar bases eleitorais, avesso a factóides, e tinha, digamos, excessiva boa-fé nas pessoas – na verdade, como dizia o Marcello, ele tinha a visão do outro, reconhecia the otherness of the others, uma expressão de Albert Hirschman, que não sei agora como traduzir.

Num recente jantar com amigos próximos, ao lado da fraqueza física que preocupou a todos, mostrou imensa percepção e acuidade na análise do Brasil.

Como se recordasse o verso de Fernando Pessoa, que ele mesmo costumava citar: “Estou lúcido como se estivesse para morrer.”

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