Artigo: Perverso duas vezes

O Globo, 4 de novembro de 2013

O Enem foi criado pelo saudoso ministro Paulo Renato para ser um instrumento de aferição da qualidade do ensino médio no Brasil. O objetivo era criar ferramentas de intervenção para melhorar a qualidade da escola pública — e, em certa medida, da escola privada também.

O governo do PT distorceu gravemente o seu sentido. Sob o pretexto de acabar com os vestibulares nas universidades federais, os petistas transformaram o Enem no maior vestibular do mundo. Ora, se o exame para ingresso na universidade pública não era bom, então o ruim agora se agigantou. E com um prejuízo adicional: o Enem já não serve mais de instrumental para avaliar a escola pública.

Assim, afigura-se mera demagogia, calcada numa mentira escandalosa, a afirmação de que o governo federal extinguiu os vestibulares. Ao contrário: unificou-os. No seu 11º ano de gestão, não houve uma só ação voltada para a qualificação do ensino médio. No máximo, fala-se numa polêmica mudança da grade curricular, que, até onde se dá o debate, tende a criar uma enorme confusão. Há o risco de que professores sejam obrigados a ministrar conteúdos alheios à sua formação.

À medida que o Enem se agiganta e que mais candidatos disputam a mesma vaga, a consequência óbvia é a elevação do grau de dificuldade da prova — como se verificou neste ano. E não há mesmo outra saída: o Enem se tornou classificatório, como qualquer outro exame de seleção. Tenho recebido relatos de que tanto alunos de escolas privadas como alunos de escolas públicas já recorrem a cursinhos pré-vestibular quando no terceiro ano do ensino médio para fazer a prova do Enem. Vale dizer: ainda que se quisesse ter a prova como um retrato do ensino médio no país, esse resultado já estaria gravemente comprometido.

Cada universidade federal faz seu vestibular ou todas elas fazem um só? É assim tão diferente? Creio que não! O tempo dirá se outra consequência deletéria não estará em curso. No vestibular tradicional, o candidato fazia a sua escolha, com uma eventual segunda opção. No geral, buscava aquela que considerava ser a sua vocação. O Enem permite, segundo a lógica das pontuações, que ele transite entre as carreiras e entre as universidades Brasil afora. Há o risco, potencial ao menos, de que vários cursos comecem a contar com muitas desistências no primeiro ou no segundo anos. Se acontecer, é dinheiro jogado no lixo.  Ainda não há dados disponíveis a respeito.

O fim do vestibular foi uma mentira. Hoje, o MEC faz o maior do planeta. E o Enem já não serve para avaliar a qualidade do ensino médio. Assim, o alardeado bem do petismo acabou juntando duas perversidades.

Veja Também

Artigo: Um projeto a favor do Brasil

Folha de S. Paulo, 12 de março de 2016. Projeto de lei de minha autoria aprovado no Senado desobriga a Petrobras de ser operadora de todos os campos do pré-sal…

Artigo: Espantoso, grandioso, bacana

O Estado de S. Paulo, 13 de junho de 2013 Há poucas semanas, foram concluídas as licitações para novas explorações de petróleo, paralisadas havia cinco anos. Eram licitações, digamos, à…

Artigo no Estadão: “Apagar o cigarro”

Combater o tabagismo é sempre bom, não só para a saúde, mas para as finanças públicas O Estado de S.Paulo 27 Abril 2017 Entre as políticas de saúde que deram…