Quem somos nós e por que lutamos

Com os não radicais fragmentados, só vamos continuar a marcar passo

José Serra*, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2020 | 03h00

Uma iniciativa de opositores às aspirações autoritárias do atual presidente busca inspiração no movimento das Diretas-Já, de 40 anos atrás. Episódios históricos são sujeitos a revisões e reversões de seus fatos e significados ao longo de décadas e séculos.

Mesmo aqueles que, como eu e muitos de minha geração, participaram ativamente do movimento terão versões particulares do que viram e ouviram contar. Gostaria de compartilhar aqui lições que pude aprender com base em meu testemunho pessoal e nos conhecimentos das ciências sociais.

O movimento das Diretas não foi apenas um tipo de movimento coletivo, agrupamentos que se movem ao mesmo tempo, sem objetivo preestabelecido, não necessariamente de modo convergente, nem no mesmo espaço, e sem um desfecho previsto. O Diretas-Já foi mais do que isso: um movimento social, definido pelo sociólogo francês Alain Touraine – grande amigo e estudioso do Brasil e da América Latina – como um movimento coletivo com objetivo claro, com adversário definido e senso de identidade. Em suma: quem somos nós, por que lutamos e contra quem.

Parece claro que nem os diversos movimentos coletivos em nosso passado recente, nem mesmo grande número de partidos políticos, têm clareza sobre essas dimensões, que, idealmente, deveriam ter presidido sua criação.

O Diretas-Já teve um alvo imediato bem definido, a aprovação do projeto de emenda constitucional do deputado federal Dante de Oliveira que aboliria a eleição indireta do presidente da República por um colégio eleitoral criado sob medida para eleger quem o regime escolhesse. Era uma ideia com grande apoio popular, mas uma ideia só não faz verão, e a oposição não tinha votos suficientes (dois terços das duas Casas do Congresso Nacional, na época) para aprovar aquela emenda.

Três fatores transformaram essa ideia em movimento social. Em primeiro lugar, nos dez anos precedentes formou-se um grande movimento de ideias. Intelectuais, editorialistas, artistas, lideranças dos mais diversos matizes, políticas, sindicais, religiosas, martelavam diuturnamente, nos meios de comunicação tradicionais e alternativos, o princípio da primazia da sociedade civil sobre o regime autoritário, da legitimidade das instituições democráticas e da representação popular.

Isso deixou claro “quem somos nós” (a sociedade civil) e “contra quem lutamos” (o governo militar). Inicialmente, o ideal por que lutávamos era pontual: devolver à sociedade civil o direito de eleger o presidente da República.

Outro fator foi a liderança política assumida pelo governador Franco Montoro, do Estado de São Paulo, o mais poderoso da Federação, que propiciou a mudança de patamar de manifestações restritas para um movimento político com uma estratégia de poder. Com isso foi possível reunir a capacidade de mobilização popular de praticamente todos os governadores e dominar as ruas em todo o País. O mais importante, entretanto, é que, quando o movimento foi derrotado – por não ter alcançado o quórum constitucional –, o ideal do movimento se transformou, de restaurar o voto popular direto para conquistar o poder, mesmo disputando dentro das regras impostas pelo regime. Ou seja, nós, a sociedade civil, lutamos para conquistar o poder político, contra o regime autoritário e tudo o que ele representa.

Essa nova razão de ser do movimento – conquistar o poder político, e não apenas mudar as regras do jogo – acrescentou outra dimensão: o princípio das concessões mútuas. Para conquistar a vitória no colégio eleitoral a oposição teria de conquistar votos entre os adversários, a fim de que seu candidato fosse eleito.

Essa opção não foi aceita por alguns governadores e líderes partidários, particularmente do PT, que recusavam disputar o poder “dentro das regras da ditadura”, porque reconheciam, até com razão, que sua chance de vitória seria disputando eleições diretas. O maior partido do Congresso e em número de governadores, o PMDB, contava com três fortes candidatos capazes de reunir a condição sine qua non para ganhar o pleito indireto, isto é, serem aceitos pela Frente Liberal, dissidência do partido do governo, e aceitarem os moderados do governo como aliados para o pleito. Eram eles o grande articulador das Diretas-Já, Franco Montoro, o líder inconteste da oposição, Ulysses Guimarães, e Tancredo Neves, cujas inclinações moderadas seriam mais aceitáveis para a Frente Liberal.

Montoro propôs a Ulysses que ambos renunciassem à candidatura por ser Tancredo mais viável para compor a chapa com José Sarney, líder da Frente, que acabara de renunciar à presidência do partido do governo.

O movimento das Diretas não fracassou quando derrotado em seus objetivos iniciais. Adotou uma estratégia de poder, com definição clara de sua identidade e do adversário, e criou uma maioria, atraindo os mais moderados entre os adversários.

Enquanto os não radicais da classe política e da sociedade civil continuarem fragmentados entre radicais dos dois lados e não adotarem um estratégia convergente de poder, continuaremos a marcar passo.

* JOSÉ SERRA É SENADOR (PSDB-SP)

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