Revolução a passo de tartaruga

A Amazon já está vendendo mais livros eletrônicos do que em papel nos Estados Unidos. A oferta de e-livros (é assim que se traduz e-book?) em português ainda é limitada mas começa a ficar interessante. Por exemplo, você já acha muita coisa do Machado de Assis e outros clássicos da língua portuguesa em formato digital. E o que é melhor, de graça ou quase. Duvida? É só digitar no Google “ebook machado de assis”.

 

Este é um lado especialmente interessante do e-livro: sem papel para imprimir e transportar, o custo de distribuição é muito baixo. Se também não houver direito autoral a pagar, o custo final para o leitor converge para zero.

 

Assim, todas as obras de domínio público poderão estar disponíveis para baixar de graça da web. Ou seja, distância e custo deixarão de ser obstáculo para se ter acesso a muita coisa que foi publicada no mundo há cinqüenta anos ou mais. E o acesso às obras recentes, com direito autoral, tende a ficar bem mais barato, além de instantâneo. É ou não é uma revolução?

 

É, para quem tiver acesso a duas coisas: alfabetização e internet. Esse é o bilhete de entrada para a revolução digital.

 

Alfabetização é assunto para outro post.

 

Acesso à internet inclui conexão e um dispositivo de leitura, que pode ser um computador ou leitor de e-livro. O custo do dispositivo já baixou muito, vai baixar mais e paga-se uma vez só. Mas a conexão é um problema: no Brasil ainda é muito cara e de baixa qualidade.

 

Se quiser embarcar para valer – isto é, sem deixar ninguém de fora – na revolução digital, o Brasil precisa tratar da universalização do acesso à internet como um objetivo estratégico. O governo federal reconhece isso, mas não sabe como avançar para o objetivo com a velocidade necessária. Tropeça na ideologia (e na fisiologia). Reinventa o velho: uma empresa estatal sem recursos nem capacidade gerencial para tocar o Plano Nacional de Banda Larga. E retarda o novo: a necessária revisão do marco regulatório das telecomunicações, para adequá-lo à realidade da internet.

 

Resultado: o plano grandioso de investimento estatal está marcando passo, como aliás quase todos os projetos anunciados com pompa e circunstância eleitoral no ano passado. E os problemas regulatórios mal resolvidos travam os investimentos privados. Desse jeito, em vez de revolução, o que o Brasil pode ter a curto ou médio prazo é a saturação da infraestrutura da internet.

 

Isso não vai impedir os que já estão conectados de baixar e-livros e músicas. Mas vai atrasar a expansão no Brasil do acesso a vídeo pela internet. E vai manter milhões de brasileiros esperando mais do que precisariam para ter acesso a uma conexão de internet, se não boa, ao menos passável.

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