Artigo na Folha: “Onde fica a inflação”

ONDE FICA A INFLAÇÃO

Folha de S.Paulo
30 de agosto de 1988

Uma inflação elevada como a que prevalece no Brasil atualmente não apenas desestabiliza o funcionamento normal da economia como é em si, fortemente instável, independentemente de choques externos (exogenos). Essa instabilidade intrínseca se traduz na tendência à elevação do ritmo dos preços, ou seja, de a inflação não se deter onde está, mesmo que não ocorra nada grave.
Entre os diversos motivos que explicam a instabilidade, ressalta, em primeiro lugar, aquele que está associado ao risco do erro na fixação de preços por parte das empresas. O empresário fixa seus preços prevendo uma certa evolução futura da inflação na economia. Para isso, ele formula hipóteses, dentro de algum intervalo de variação entre máximos e mínimos. Se a inflação for baixa, digamos, 10% ou 20% ao ano e o empresário subestimar a evolução dos outros preços, isso não será tão grave para sua firma. Mas se a taxa inflacionária por alta, da ordem de 500 ou 1.000%, é óbvio que erro para baixo lhe trará perdas graves.

Qual a consequência prática? As empresas tenderão sempre a fixar preços futuros contemplando as hipótese mais altas de inflação futura, circunstância que, evidentemente, empurrará a inflação para cima, dentro do conhecido mecanismo da profecia que se auto cumpre. Outro fator importante da instabilidade é, paradoxalmente, a generalização do aprendizado a respeito da defesa contra a inflação. Como lembrou o professor Dornbusch em entrevista à Folha, se os consumidores aprenderem que os supermercados remarcam seus preços na segunda-feira de manhã, concentrarão suas compras no sábado. Nesse caso, provavelmente, os supermercados anteciparão o dia da remarcação, os consumidores novamente o dias das compras etc., num processo que intensifica a inflação por unidade de tempo.

A matéria da revista “Veja” desta semana (“Um guia para enfrentar a inflação”) ilustra de maneira expressiva a generalização do aprendizado – truques lícitos para aumentar o valor do 13º salário, passar fim-de-semana quase de graça no Copacabana Palace, pagar menos impostos em valores reais etc. Como é evidente, os truques bem sucedidos de uns trazem perdas para outros, que também encontrarão sua forma de defesa e ganho. A resultante final, não há dúvida, é mais inflação e os perdedores finais serão sempre os assalariados menores e médios.

Como sair desse mecanismo infernal? Evidentemente não pode exigir que empresários minimizem riscos e que os indivíduos não aprendam a defender-se da inflação. Parece tautológico, mas o único caminho para mitigar a incidência dos citados mecanismos de propagação inflacionária é o da contenção da própria inflação.

Aliás, tais mecanismos não representam o único fator que agrava a espiral de preços. Há possibilidade de choques exógenos (agricultura, setor externo…) e, porque não, a ameaça de um colapso na confiança em relação à quase-moeda da dívida pública, de pouco provável concretização a curtíssimo prazo, mas sempre presente.

O professor Dornbusch fez ainda uma consideração otimista. Para ele, o descontrole inflacionário resulta de governos fraços, mas o enfrentamento bem sucedido da inflação descontrolada também é feito por governos fracos. Neste caso, prefiro nem conferir a acuidade histórica da assertiva de Dornbusch e, pelo bem do país, torcer para que ele tenha razão.

José Serra

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