O direito à norma culta

Já se escreveu bastante, mas leitores e amigos insistem para que eu aborde o tema do livro que ensina que dá no mesmo dizer “os livros” ou “os livro”.

O pensamento e a escrita são livres. O que me espanta é a dificuldade do Ministério da Educação (MEC) para reconhecer que errou ao chancelar o livro, comprá-lo e distribuí-lo para quase 500 mil estudantes, usando dinheiro público – R$ 5 milhões, segundo eu soube.

 

Claro que existe a chamada “norma culta” da língua, e existem “normas” incultas. No bairro da Mooca da minha infância, então pobre, a garotada na rua falava “nós vai”; pegava mal falar “nós vamos”. Em São Paulo, é comum comerem “s” e “r” do fim das palavras.

 

É óbvio que ninguém deve discriminar ninguém por isso. Mas não tem cabimento colocar as duas formas de falar no mesmo plano, num livro que deveria ensinar português a jovens e adultos que estão precisamente querendo aprender a norma culta da língua. A “norma” inculta passaria, segundo essa visão, a ser vítima de “preconceito linguístico”, e a norma culta, um instrumento de discriminação de classes. Para aprender o português popular, eles não precisariam ir à escola.

 

O MEC e as secretarias estaduais de educação, às vezes, deixam passar erros nos livros didáticos que distribuem. Errar é humano. O problema sério é não reconhecer o erro. Por vezes, ele deixa transparecer uma intenção política. Esse foi o caso de outro livro didático muito discutido por estes dias, que esconde acertos do governo FHC e erros de Lula. Se a moda pega… Transformar a escola em agência de doutrinação política é típico de regimes totalitários. O MEC não pode compactuar com isso.

 

Voltando ao livro de português: diga o que disser a autora, acho muito difícil que algum jovem tenha dúvida sobre a importância de falar e escrever bem o idioma nacional. O que eu observo por toda parte – e tenho andado pelo Brasil – é um esforço muito determinado dos jovens de aprender e usar a norma culta da língua.

 

Na língua falada, parece que vamos bem. Encontro pessoas que não tiveram chance de completar o ensino fundamental falando de um modo claro e correto. O rádio e principalmente a televisão contribuem muito para isso, difundindo um padrão nacional de português pelos quatro cantos do país.

 

Na língua escrita, ainda temos dificuldades. Às vezes, em cartas e-emails que recebo ou em comentários que leio na web, noto que o conteúdo é consistente, o raciocínio é bem articulado, mas há tropeços de ortografia e gramática.

 

Nossos jovens têm direito de aprender a falar e escrever um bom português, como parte de uma educação que os prepare para o trabalho e para a vida. O MEC, entre todas as instituições, é o último que poderia tergiversar sobre isso.

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