Castro: inteligência e método

No domingo passado, morreu num acidente o economista Antonio Barros de Castro. Ele foi um dos maiores intelectuais e professores de sua geração. Era bem jovem quando integrou, no Rio, a equipe do professor Anibal Pinto, economista chileno que dirigia o escritório da Cepal (Comissão Econômica para América Latina), da ONU, no Brasil.

 

Dom Anibal era um grande e generoso mestre. Graças ao seu incentivo intelectual e aos desafios profissionais postos pela Cepal, então no seu auge, Castro produziu os excelentes e originais textos do seu primeiro livro Sete Ensaios sobre a Economia Brasileira. Aliás, curiosamente, os ensaios foram seis – o sétimo acabou sendo o restante de sua obra publicada como livros e artigos.

 

A vocação docente de Antonio Castro ficou cravada no texto de Introdução à Economia que escreveu com Carlos Lessa, seu colega de trabalho, em razão dos cursos que o escritório organizava no Brasil. Foi o livro de introdução – de autores latino-americanos – mais vendido no Brasil e na América Latina durante muito tempo.  Chegou à 46ª edição!

 

Estava falando de meados dos anos sessenta e acabei me lembrando de uma advertência que Joseph Schumpeter fazia a seus alunos, em Harvard, segundo a qual as coisas mais marcantes na vida de um intelectual são feitas até… os 30 anos. Advertência marota do grande Schumpeter, destinada a afligir e pressionar seus estudantes a trabalhar e a criar. Curiosamente, para aquele grupo de jovens economistas que se formou no Rio, ela se mostrou verdadeira.

 

Castro bebeu na fonte cepalina dos anos sessenta, então bem heterodoxa, mas rapidamente mostrou-se um heterodoxo entre os cepalinos, como revelaram os citados ensaios. Tinha uma enorme capacidade de estudo, muita curiosidade pelos fatos e por idéias de outros. Sabia expor as suas de forma didática, atraente e respeitosa, mas enfática, mesmo quando distantes do pensamento dos interlocutores. Raramente se envolvia mais a fundo em discussões sobre a conjuntura da economia — seu foco privilegiado sempre foi o médio e o longo prazos e a análise das questões estruturais. Em exposições, debates ou conversas, cultivava uma técnica por vezes utilizada por outros intelectuais e políticos, para ele eficiente: exagerar num ponto de vista, surpreendendo e desconcertando interlocutores, aproveitando para testar e elaborar melhor suas teses.

 

Quando eu era governador de São Paulo, convidei-o para falar a um grupo de secretários sobre o papel do petróleo no Brasil em razão das descobertas no pré-sal. Defendeu a idéia — foi o primeiro a formulá-la de forma consistente — de que o Brasil deveria adotar um plano de exploração gradual e sustentada daquela riqueza. Nada de afobação, dados o elevadíssimo volume de investimentos necessários, o impacto da exploração dos novos lençóis petrolíferos sobre a economia e o meio ambiente e os preços internacionais do produto. Por que importar máquinas atabalhoadamente em vez de planejar a capacidade de exploração e balancear a produção interna e a externa? A afobação, dizia, poderia transformar um trunfo em desperdício ou maldição, como aconteceu em outros países petrolíferos da América Latina e da África.  Essa era e é uma idéia bem heterodoxa, especialmente face ao oba-oba e à afobação que prevaleceram.

 

Agora há pouco, antes de começar a escrever esta nota, vi no desktop do computador um artigo do Castro que eu tinha arquivado para ler em algum momento: trata de novas tendências que estão moldando  a economia mundial, da China, do Brasil e das relações econômicas entre ambos. Muitíssimas tabelas, números, informações e idéias. Impossível não tirar proveito até das discordâncias e dúvidas.

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